Posts Tagged ‘Crônica de notícia’

Invasão de privacidade

Sr. X era um cantor e compositor de anos passados que já não fazia tanto sucesso, a não ser para alguns fãs antigos, que ainda eram fiéis às suas composições e ideias. Cansou do lugar onde vivia e foi viver uma de suas músicas, pingando de paisagem em paisagem, nos versos da canção.
Anos depois surgiu um boato de que ele estaria sumido. Os jornais procuraram, os fãs procuraram, a TV achou.
Acabou-se o sossego.por do solJPG

Amor de Estrelas

Jonas estava olhando para o céu. Seus pensamentos íam e vinham frenéticos, lentos. Cada nuvem era um pedaço da história que sua imaginação contava. As estrelas começaram a surgir um céu de escuridão, sem lua, sem luz que as ofuscasse. Eram todas amigas, conversavam com ele. Brincavam com ele.

Jonas já estava se levantando para ir embora, quando ela apareceu, toda luz, toda estrela. Sorriu. Estava apaixonado.
Em casa, Jonas ficou sabendo que um satélite russo chocou-se com um americano em pleno universo, bem em cima de sua casa.Amor de estrelas

O valor do dinheiro

Marcos terminou sua bebida. Levantou-se tropego e começou seu caminho de volta para casa. Entrou fazendo barulho e encontrou o cunhado lá dentro. “O que esse cabra safado está fazendo na minha casa?” pensou e logo em seguida foi falando. Brigou com o cunhado, colocou-o para fora da sua casa.
Chamou pela esposa, que não respondeu, pois não estava em casa. “Aquela safada deve estar botondo gaia em mim!” pensou novamente. “Vou dar o troco”.
Pegou a peixeira e começou a gritar dentro de casa. Disse que ía matar todo mundo. As crianças começaram a chorar, três delas filhas dele, entre elas um bebê de 10 meses. Os vizinhos ouviram e chamaram a polícia, a imprensa, os bombeiros e a mãe das crianças.
Marcos disse que trocava as crianças pela mãe. A polícia não deixou. A cachaça venceu o homem e a polícia prendeu o bêbado.
A esposa disse aos jornais que o marido estava descontrolado porque não tinha emprego e se sentia humilhado quando não podia comprar comida para as crianças.
Mas podia comprar bebida…

 

cifrao

A morte da menina

Ana estava assistindo TV. Tinha uma menina na janela chorando e um rapaz com um revólver atrás dela. A polícia estava cercando o prédio, todo mundo armado, mas ninguém fazia nada. essa história tava passando fazia um tempo na TV, parecia filme americano, mas não era, era real, estava passando no jornal. No fim a menina morreu. E a amiga ficou ferida. Ana virou para a mãe e perguntou:

- Mãe, por que o namorado dela fez isso? Ele era malvado era?

- Não sei, meu anjo, não sei.

Ana foi para o quarto pensando que talvez fosse melhor nunca namorar nenhum menino.

Vai uma bala aí?

Eduardo tinha treze anos e queria ser jogador de futebol. Sempre quis, desde pequeno. Não que ele fosse muito grande, era baixinho e magrinho, mas corria que era uma beleza e tinha algum talento com a bola. Mas tinha outras coisas além disso. A mãe o obriagava a ir à escola, todo dia. Por causa do dinheiro que ela recebia do Governo e que pagava as contas em casa. Era um saco ter que andar um tantão e pra assistir aula daqueles chatos. Às vezes tentava uma carona no ônibus, mas instalaram câmeras e os motoristas não deixavam mais, o jeito era andar mesmo.

 

Só tinha um professor que ele gostava. Era o professor de Ciências, seu Marcelo. Ele dizia um monte de coisas legais, fazia umas experiências engraçadas e um dia até tocou fogo em dinheiro, mas o dinheiro saiu sem um chamuscado sequer.

 

Depois da aula, Dudu, como era chamado pelos amigos, ía ajudar a mãe, vendendo bala na frente do cinema do centro da cidade. O cinema era assustador e com certeza tinha fantasma. O porteiro disse que era de um homem muito rico, o dono do cinema, que tinha morrido muito tempo atrás e o cinema tinha ficado fechado por quase uma década, que são dez anos.

 

Olha a bala! Vai uma balinha aí, minha senhora? Olha que a sessão é longa!

 

Não vendiam muito e todo mês o dinheiro faltava. Na verdade, o dinheiro nunca chegava a ser o suficiente. por isso que Dudu ía ser jogador de futebol. Ía ganhar muito dinheiro e sair com modelos. Daria uma casa pra mãe e ela nunca mais ía vender bala no cinema. Mas acabava sem muito tempo pra treinar.

 

Pelo menos no fim de semana dava. A mãe dava folga a ele e lá ía o garoto jogar uma pelada. Nesse domingo, chegou um rapaz mais velho e ficou olhando. Dudu logo pensou que fosse um olheiro, sei lá, de algum time, e jogou o melhor que podia. No fim da partida lá vem o homem falar com ele. Perguntou o que ele fazia.

 

Eu vendo bala no cinema.

 

Quanto você ganha garoto?

 

Não muito.

 

Pois eu tenho uma bala pra você vender que vai te deixar rico, rapidinho.

 

Mesmo? E onde que compra ela?

 

Eu contrato você pra vender, você não precisa comprar nada, mas precisa saber correr, topa?

 

Claro! Correr eu sei.

 

Segunda-feira:

 

E aí boy, vai uma balinha?

 

…………………………………………………….

PS: Bala nesse texto tem dois significados. O primeiro, no início do post, quer dizer bombom. O Eduardo vendia, bombom, chocolate, chiclete, esses doces no cinema. O segundo significado é droga, o do final. Drogas em comprimidos (como ecstasy e tantas outras) são chamados, na gíria das drogas de “doce” ou “bala”. Por isso que após ser aliciado pelo traficante, Dudu pergunta se “vai uma balinha?”.

 

*Originalmente publicado no Paradoxalmente Ser

* Imagem Flickr

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