Vai uma bala aí?

Eduardo tinha treze anos e queria ser jogador de futebol. Sempre quis, desde pequeno. Não que ele fosse muito grande, era baixinho e magrinho, mas corria que era uma beleza e tinha algum talento com a bola. Mas tinha outras coisas além disso. A mãe o obriagava a ir à escola, todo dia. Por causa do dinheiro que ela recebia do Governo e que pagava as contas em casa. Era um saco ter que andar um tantão e pra assistir aula daqueles chatos. Às vezes tentava uma carona no ônibus, mas instalaram câmeras e os motoristas não deixavam mais, o jeito era andar mesmo.

 

Só tinha um professor que ele gostava. Era o professor de Ciências, seu Marcelo. Ele dizia um monte de coisas legais, fazia umas experiências engraçadas e um dia até tocou fogo em dinheiro, mas o dinheiro saiu sem um chamuscado sequer.

 

Depois da aula, Dudu, como era chamado pelos amigos, ía ajudar a mãe, vendendo bala na frente do cinema do centro da cidade. O cinema era assustador e com certeza tinha fantasma. O porteiro disse que era de um homem muito rico, o dono do cinema, que tinha morrido muito tempo atrás e o cinema tinha ficado fechado por quase uma década, que são dez anos.

 

Olha a bala! Vai uma balinha aí, minha senhora? Olha que a sessão é longa!

 

Não vendiam muito e todo mês o dinheiro faltava. Na verdade, o dinheiro nunca chegava a ser o suficiente. por isso que Dudu ía ser jogador de futebol. Ía ganhar muito dinheiro e sair com modelos. Daria uma casa pra mãe e ela nunca mais ía vender bala no cinema. Mas acabava sem muito tempo pra treinar.

 

Pelo menos no fim de semana dava. A mãe dava folga a ele e lá ía o garoto jogar uma pelada. Nesse domingo, chegou um rapaz mais velho e ficou olhando. Dudu logo pensou que fosse um olheiro, sei lá, de algum time, e jogou o melhor que podia. No fim da partida lá vem o homem falar com ele. Perguntou o que ele fazia.

 

Eu vendo bala no cinema.

 

Quanto você ganha garoto?

 

Não muito.

 

Pois eu tenho uma bala pra você vender que vai te deixar rico, rapidinho.

 

Mesmo? E onde que compra ela?

 

Eu contrato você pra vender, você não precisa comprar nada, mas precisa saber correr, topa?

 

Claro! Correr eu sei.

 

Segunda-feira:

 

E aí boy, vai uma balinha?

 

…………………………………………………….

PS: Bala nesse texto tem dois significados. O primeiro, no início do post, quer dizer bombom. O Eduardo vendia, bombom, chocolate, chiclete, esses doces no cinema. O segundo significado é droga, o do final. Drogas em comprimidos (como ecstasy e tantas outras) são chamados, na gíria das drogas de “doce” ou “bala”. Por isso que após ser aliciado pelo traficante, Dudu pergunta se “vai uma balinha?”.

 

*Originalmente publicado no Paradoxalmente Ser

* Imagem Flickr

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