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A Falta do Amor

Cayane tinha 11 anos e morava num barraco junto com o irmão Júlio de 14 anos e mais duas irmãs, uma de 6 e outra de 19 anos. Cayane estava na rua, cheirando cola com um amigo e a namorada dele. Faz tempo que ela não sabia o que era escola. Desde que a mãe foi embora e nunca mais voltou. Isso foi há dois anos. O pai ela nunca viu, nem por foto. O filho da puta era um bêbado, que batia na mãe e abandonou a família assim que ela nasceu. A irmã mais nova é filha do padrasto, um traficante com quem a mãe teve um caso para fumar uns baseados de graça. Mas a mãe é fraca, só curtia ficar doidona e pronto, não curtia uma onda mais intensa.

 

Cayane não via graça no baseado, só fazia ela ficar lesa, preferia pó ou doce, mas não tinha dinheiro pra comprar e ela já sabia que não era bom dever pros caras. Então ela ficava com a cola mesmo, era mais barato, dava pra roubar. E diminuía a fome.

 

Ela já tava doidona quando Júlio chegou. Só sentiu ele querendo pegar a cola da sua mão. Fechou a mão com força. Ninguém a roubava, nem mesmo o irmão. Um puxava o tubo de cola prum lado, o outro puxava pro outro. Cayane cerrou os dedos ao redor do tubo e não largava de jeito nenhum, Júlio começou a se irritar. O amigo e a namorada dele, entraram na briga do lado de Cayane. Júlio percebeu que não ía ter como ganhar a briga contra os três. Não teve dúvidas, puxou uma tesoura e começou a golpear os outros. Acerto a irmã na barriga. Ela soltou o tubo de cola, que ele pegou do chão e saiu muito satisfeito. Tinha ganhado.

 

Cayane ficou com muita raiva. Raiva do irmão que tinha ganhado a briga, raiva de estar machucada, raiva da mãe ter ido embora, raiva de não ter outro tubo de cola, raiva de estar com fome. Foi no posto e comprou um tubinho de álcool liquido. Junto com o amigo, voltou pra casa, derramou álcool no irmão que estava dormindo e acendeu o fósforo.

 

Júlio foi para o hospital público com queimaduras de segundo grau no tórax, mas passa bem. Cayane foi encaminhada para um desses órgãos responsáveis pelos menores.

* Originalmente publicado em Paradoxalmente Ser

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