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Borboletas

Gabi estava pensando nos acontecimentos dos últimos dias. Tudo muito dentro da rotina, sem grandes abalos. Mas tinha uma coisa que estava cutucando os pensamentos dela. Um detalhe, lá no fundo, que ela ainda não sabia muito bem o que era, mas que estava começando a ficar incomodada porque sabia que tinha alguma coisa que não sabia o que era.

 

Começou a repassar os dias freneticamente, repetidamente. Tinha acordado, ido pro trabalho, depois almoçado na casa da avó, ido pra faculdade, lanchado, conversado com a amiga, trabalhado de novo, voltado pra casa. No outro dia a mesma coisa. Tirando as variações normais, como estresses, briguinhas, diferentes assuntos nas conversas. Mas tava faltando alguma coisa. Alguma coisa que se repetia também, como um sinal, uma mensagem. O que era, o que era? Não lembrava. Não tinha jeito, simplesmente não lembrava.

 

Tava ficando tarde e Gabi foi dormir. Sonhou. No sonho, ela estava num imenso jardim, com flores vermelhas e asas amarela e laranjas esvoaçantes.

 

Acordou. Borboletas. Era isso!

* Originalmente publicado no Paradoxalmente Ser

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A Roda da Fortuna

O despertador tocou. Gabi desligou e dormiu de novo. Levantou 20 minutos depois. 8h20. Ía chegar atrasada no trabalho. Preparou um sanduiche de queijo, pegou um iogurte e ligou a TV. Estavam falando de Isabela no programa Mais Você. Mas não da que foi assassinada, essa tinha só 26 dias e foi sequestrada. Um grupo que se dizia da produção do programa entrou em contato com uma agência de modelos e chegou até a mãe da criança. Um golpe muito bem dado. Pode ser para o tráfico de seres humanos, ou até de órgãos.

 

Gabi desligou a TV. Desistiu do mundo. Ele estava perdido. Agora não tinha mais volta, suas ilusões foram ao chão. Existiam pessoas más, lobos maus, que matavam criancinhas, sequestravam-nas. Existiam pessoas que conseguiam dormir depois de piorar o mundo.

 

Tomou banho e seguiu para o trabalho. Almoçou na casa da avó, foi pra faculdade, pro outro trabalho. O mundo estava perdido, mas a vida dela seguia em frente.

 

À noite, uma mulher puxou papo com ela. Conversaram. A mulher foi embora.

 

É, o mundo não estava totalmente perdido. Ainda existiam seres humanos no mundo.

 

“Arre, Estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”
Fernando Pessoa

* Originalmente publicado no Paradoxalmente Ser

Mudanças

Noite chuvosa. Muita chuva. Através da janela, Gabriela via o mundo com olhos embaçados, longínquos. Não que não percebesse o que acontecia ao redor. Ela sabia exatamente o que se passava. Sua mãe estava na cozinha lavando os pratos do jantar e o pai tinha montado o laptop na sala para terminar um documento do trabalho. Lila, a irmã mais nova estava brincando com o gato da família, o Sr. Nicolau, e dava risadas gostosas, de criança, daquelas que dá vontade de rir junto.

 

Também percebia os movimentos fora de casa. A chuva molhando a grama e as flores no jardim. O céu cinzento e escuro, cortado vez por outra pelas luzes azuladas dos relâmpagos. E o som dos trovões. E o barulho da chuva batendo no concreto, telhas e vidros da casa, ora mais forte, ora mais fraco.

 

Mas Gabriela via mais, ela olhava pra dentro. Via coisas que não gostava e começava a pensar em formas de mudá-las. Estava fazendo uma lavagem, uma limpeza em si mesma. Estava plantando o início da mudança.

 

* Originalmente publicado no Paradoxalmente Ser