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Apaixonamento

menina mulherMarina caminhava sem rumo, olhando pontos desfocados de luz e sombra. Os olhos embaçados não se prendiam a nenhuma imagem, nenhuma cor, só luz e sombras alternavam em seu olhar. Sentou no banco de um lugar qualquer, não importava onde, andava perdida dentro de si mesma, que importava o mundo lá fora quando por dentro tudo era tormenta e furacão?

Sentiu um cheiro familiar, se forçou a ver. Viu cores, viu formas, viu um rosto que lembrava o gosto doce de morangos com marshmallow. Sorriu. Que mais podia fazer se era ele quem vinha caminhando em sua direção?
Sorriu um sorriso bobo, de quem se acha de repente, de que encontra um foco. E ele sorriu de volta.

Cores brilhantes luziram ao redor dela, sons, formas. E a vida jorrou de novo.

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Marasmo

Marina acordou chateada. O dia tinha começado errado. O tempo não passava, as nuvens cinzas estavam baixas. Ía chover. Talvez, se as nuvens fossem rosas, ou quem sabe laranjas, ela pudesse dizer que seria legal o dia. Mas eram cinzas e ficavam mais escuras enquanto o tempo se arrastava. E tinha a chuva que vinha… Se ela não fosse tão fria, tão triste e tão molhada, talvez Marina gostasse dela. Se tivesse gosto de morango com chocolate e sorvete de creme, se tivesse cheiro de jasmim, quem sabe não mudasse tudo? Mas era apenas chuva, molhada e fria, e o cheiro de asfalto molhado.
O dia foi meio parado, sem muitos assuntos, sem muitas tarefas, sem muitos sonhos. O tempo talvez fosse um velho barbudo de pernas cansadas querendo uma cadeira para descançar. Talvez fosse uma criança entretida com um brinquedo. Só o que Marina sabia é que hoje o tempo estava distraído, tinha parado pra conversar, e ela queria que ele andasse mais rápido. Ela queria que o dia terminasse. O dia chuvoso, cinza e lerdo. Dia de ficar na cama sonhando acordada e fingindo que está dormindo.

Anuviado

Leve como uma pluma. Talvez fosse essa a definição de como Marina se sentia. Tudo ao redor era uma mistura de cores, sons e formas. Uma mistura tão bem misturada que ela não sabia onde começava um ou terminava o outro, tudo estava fundido, como o brinco que quebrou e o pai mandou o joalheiro soldar.

Lentidão. Tudo era pulsação. Lenta, intensa, como se cada momento pudesse ser só um momento, somente aquele momento. De olhos fechados sentia o coração pulsar. Ao abri-los sentiu o mundo inteiro pulsar com a mesma intensidade e lentidão do seu coração.

Tum.

Tum.

Tum.

Os aromas se misturavam às cores. Azul tinha cheiro de lavanda, tinha o gosto doce. O verde era um chá de capim-santo refrescante, o amarelo era manteiga, energia, salgado, forte. Flores passavam pelo ar. Sentia gostos, podia lamber a fumaça do ar. Fumaça colorida com gosto de laranja lima.

Azuis

Era como se, de repente, Marina pudesse enxergar o mundo com outros olhos, através do papel celofane multicolor. Seus sentidos estavam entorpecidos, anuviados. Até que não podia sentir nada mais. Fechou os olhos. Escuridão, silêncio, calmaria.

A arte de voar

Marina buscava caminhos para ser livre. Em seus sonhos ela voava por lugares desconhecidos, paisagens belas, e imagens vistas só em livros. Todo dia ela se perguntava se aqueles lugares eram reais. Com o tempo todos os lugares já eram conhecidos, de tanto Marina sobrevoá-los em sonho. Muitas vezes ela até os explorava, sentia o perfume das flores, as gotas de orvalho, os raios de sol. Tocava em muralhas antigas e até conhecia pessoas. Mas o que sentia mais falta quando estava acordada era a sensação de voar, de sentir o vento frio no rosto, de ter os cabelos bagunçados pelo senhor vento, de sentir-se livre.

Um dia Marina estava passando por uma academia de dança e viu algumas bailarinas, elas estavam voando, pareciam tão leves, saltavam, flutuavam. Entrou. ponta-de-pe

– Posso fazer as aulas? – perguntou timidamente à professora.

– Podemos fazer um teste para ver se você tem as aptidões necessárias. Normalmente as dançarinas iniciam o aprendizado cedo, aos 5 anos, e você já é bem grandinha.

Marina nunca tinha colocado uma sapatilha na vida, nem tinha a técnica, mas sabia voar. Voava em seus sonhos.

A escolha de Marina – final

Marina chegou em casa era quase noite. Falou com os pais. O pai opinou por ter o filho, disse que ajudaria nas despesas, na educação. A mãe disse que se ela quisesse tirar, eles também ajudariam nas despesas e que estariam do lado dela. Ficaram calados. Marina levantou. Já estava tarde. Tomou banho e foi deitar. Fechou os olhos, mas não conseguiu dormir. Passou a noite em claro.

 

Assim que amanheceu, ela levantou. Ligou o computador e procurou todas as informações que podia sobre aborto. estava decidida. Falou com os pais. A família tinha um bom advogado. Em três semanas saiu a permissão do juíz. O que foi muito rápido, considerando a justiça no Brasil, ainda mais no que se refere a casos polêmicos como o aborto.

 

Foi ao médico. Tinha um hospital que fazia os abortos. Conversaram com ela. Perguntaram se era isso que ela queria fazer. Disseram que era arriscado, que ela estava tirando uma vida. Tentaram convencê-la a ter o filho. Só que eles não íam ter o filho, ela teria. Eles não sofreram o estupro, ela sofreu.

 

– Não, doutor. Eu não mudei de idéia. Eu quero fazer o aborto.

 

Entrou na sala de cirurgia. O procedimento era simples. Mas o médico achava que aquilo estava errado. Que ela era uma irresponsável, que devia ter dado margem para o estupro. Tornou um procedimento simples em algo complicado. Foi displicente. O aborto teve algumas complicações. As enfermeiras a tratavam mal, olhavam de forma acusadora. Não cuidaram dela.

 

Infecção generalizada decorrente de aborto. Dizia o laudo médico que confirmava o óbito.

 

-Não. – disse a mãe de Marina – minha filha morreu por preconceito, por displicência médica. Porque tinha o direito de fazer uma escolha, mas os outros não respeitaram.

 

Marina só queria ser feliz.

* Originalmente publicado em Paradoxalmente Ser

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